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Items tagged with: desejo
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Posted By:  criscasty
Posted On:  Mar 4, 2008

  Respirando Amor em seu Corpo...

"Corpo que se aproxima do meu procurando abrigo E mesmo sem intimidade sabe que apenas quer sentir a vida pulsar por entre almas unidas abraçadas pela força de um amor que surgiu de repente, quando cada um era só desencanto cansado do amor sufocado da cidade, um amor que a terra faz...... [view]

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  Livro discute sexualidade como desafio para o desenvolvimento - Questões de Sexualidade–Ensaios Transculturais - Versão Impressa Gratuita no Site

Submitted By:   criscasty
Author Name:  Por Angela Freitas/ Instituto Patrícia Galvão - Site Mullheres de Olho
Published:  0000-00-00

Website:  http://www.sxpolitics.org/mambo452/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=12&Itemid=2
  Description:   Questões de Sexualidade–Ensaios Transculturais, foi lançado no Rio na terça-feira, 10/06. Reúne textos de pesquisadores/as e ativistas de vários países e a tradução para o português foi coordenada pelo Observatório de Sexualidade e Política (SPW, sigla em inglês). O original, IDS Bulletin–Sexuality Matters, foi organizado por Andréa Cornwall e Susie Jolly/ Programa em Sexualidade e Desenvolvimento do Institute for Development Studies (IDS/ Universidade de Sussex/Inglaterra). Os relatos oferecem uma profícua noção transcultural da sexualidade. Mulheres de Olho entrevistou Sonia Corrêa, autora de um dos 21 artigos do livro. Ela é co-coordenadora da SPW e pesquisadora associada da ABIA, ONG brasileira onde está sediada a Secretaria Executiva da SPW. Mulheres de Olho - Qual a importância de se divulgar, no Brasil, experiências inovadoras e bem-sucedidas na defesa dos direitos sexuais em outros lugares do mundo? SC – A publicação traz tanto artigos que tratam de intervenções no campo da sexualidade, dos direitos sexuais, da violência sexual, quanto textos mais conceituais e teóricos, sobre os desafios de desenvolver uma grade conceitual e aplicar politicamente direitos no campo da sexualidade. No Brasil ainda é muito limitado o acesso a essa literatura. Os artigos em geral não são traduzidos para o português, a não ser no campo acadêmico onde é possível encontrar alguma coisa. Mas a literatura mais prática, das experiências, é mais inacessível. Outro aspecto fundamental é que os autores e autoras que compõem a publicação são tanto da Europa e Estados Unidos, quanto majoritariamente dos países em desenvolvimento. Isso também é uma novidade, porque a literatura que chega ao Brasil e é traduzida, na maioria das vezes é produzida na Europa e Estados Unidos. Entre os textos mais conceituais e teóricos, dois artigos são de um autor e uma autora indianos; há um belo texto sobre travestis, gênero, sexualidade e feminismo de um autor peruano; um belo texto que problematiza a categoria homens que fazem sexo com homens, de um autor caribenho. Há também pesquisas e investigações bastante inéditas, sobre práticas sexuais em outros contextos culturais como, por exemplo, o artigo da Sylva Tamale sobre a Ssenga, que é uma prática secular de iniciação sexual presente em Uganda, mas também em outros países da África do Leste. A Ssenga acontece no interior das famílias estendidas, para habilitar jovens mulheres a sentir e dar prazer sexual. Elas aprendem o alongamento dos lábios, o reconhecimento do clitóris… e Sylvia analisa como, ao longo das últimas décadas, essa prática vem sendo alterada, para ser oferecida no mercado de serviços. A Ssenga passou a ser oferecida na capital, Campala, como serviço comercial que inclui colunas de jornal e programas de rádio sobre prazer na sexualidade. A autora chama atenção para o fato de que a Ssenga, assim como práticas semelhantes em outras culturas africanas, está completamente obscurecida pelo imaginário que se produziu a respeito da mutilação genital feminina. Quando se fala em África, sexualidade e mulher a primeira idéia que vem é a imagem da mutilação. Desconstruir esse imaginário produzido ao longo dos últimos anos é um exercício muito instigante. Mulheres de Olho - Você citaria um exemplo de experiência internacional que enfrente questões que estão hoje na pauta do dia da sociedade brasileira? SC – Há vários textos que tratam de violência sexual, principalmente, mas de gênero também, e há vários artigos sobre experiências engenhosas de prevenção de HIV/ Aids. Há um estudo muito interessante sobre as mulheres jovens de uma favela em Bangladesh, que são forçadas a casar muito cedo. A autora analisa tanto a situação de violência a que essas jovens estão submetidas, quanto a dificuldade de se protegerem de doenças sexualmente transmissíveis, da gravidez indesejada. Entretanto, significativamente, as entrevistas também revelam um campo de agenciamento das mulheres em relação à sexualidade: como essas jovens usam suas habilidades sexuais para conseguir coisas como recursos e poder. Mulheres de Olho – Haveria uma correlação com as queixas que se faz à Lei Maria da Penha, afirmando que ela não considera que as mulheres também praticam violência doméstica? SC - Os artigos falam mais do lugar que o discurso sobre a violência de gênero e a violência sexual tende a apagar. A sexualidade é um lugar de exercício de poder das mulheres, mesmo que não seja com uma expressão violenta. Mas elas têm margens de manobra, de resistência, de sedução, de usar a sexualidade e seu poder sexual para conseguir coisas. Esse é um traço também da sociedade brasileira, e também aqui obscurecido pela dominância do discurso da vitimização. Nesse sentido pode-se fazer certo paralelo. O livro traz também um artigo muito interessante sobre a apresentação dos Monólogos da Vagina em Belgrado, no contexto da campanha do V Day (Dia contra a Violência às Mulheres). Nele se descreve as celebridades que foram convidadas e a reação da platéia. Há também vários relatos e análises sobre experiências de prevenção do HIV/ Aids que são inspiradores. E um artigo sobre trabalhadores sexuais masculinos em Calcutá, Índia, em que o autor chama atenção para o fato de que é importante estabelecer uma relação com os donos das casas de massagem, aonde a maior parte do sexo comercial entre homens acontece, porque eles são os poderosos do pedaço. Antes de ser educador, o autor foi trabalhador sexual, e ele sabe do que fala ao mostrar como você não vai conseguir fazer prevenção com esses trabalhadores sexuais masculinos se não negociar com os patrões. Há também dois textos sobre a importância de adotar abordagens de prevenção do HIV que considerem a questão do prazer e do desejo, sem cair na vala comum do discurso que só fala de riscos, de morte, de doença. Uma vez mais, embora a coordenação desses projetos esteja na Inglaterra, eles são desenvolvidos na Indonésia, na África Ocidental e também na Europa do Leste. As autoras mostram como a resposta dos grupos trabalhados frente à abordagem adotada é positiva nos contextos os mais diversos. Mulheres de Olho – Você acha que esta leitura será benéfica para o debate brasileiro sobre educação sexual nas escolas? SC - Para quem faz educação sexual, seja em trabalhos de intervenção de HIV ou nas escolas este livro traz, em primeiro lugar, uma visão sobre a variabilidade das práticas sexuais. Revela o quanto as inquietações com a sexualidade e a aspiração pelo prazer sexual estão presentes em todas as culturas, e não são um viés da cultura ocidental, moderna, branca, européia. O artigo de Deevia Bhana é uma contribuição especial. Ela fez uma pesquisa com crianças muito pequenas, entre quatro a sete anos, em uma escola de comunidade pobre negra da província sul-africana de KwaZulu-Natal. Ela explorou a percepção acerca da sexualidade e do HIV/Aids, revelando que essas crianças sabem sobre sexo, se interessam por sexualidade, sabem do HIV. A pesquisa quebra com o discurso tradicional sobre a inocência infantil, e também indica que não só as crianças se interessam pelo sexo como já obsorveram, em grande medida, o imaginário, as representações dominantes sobre sexo e HIV que ouvem dos adultos. Elas falam de suas curiosidades de maneira muito aberta, mas em relação a algumas coisas elas apenas reproduzem o que já ouviram dos adultos, uma coisa inculcada. Mulheres de Olho – Para uma abordagem deste tipo é importante considerar teorias como a freudiana de que o aprendizado da sexualidade passa pelo aprendizado sobre o próprio corpo. SC - Sim! Mas quem tem acesso a essas teorias? Esse é o problema! A maior parte dos professores e das pessoas da sociedade, mantém a percepção dominante que ainda é a da inocência infantil, a de que a infância é um lugar sem sexo e que o sexo começa na adolescência. Você pode fazer uma pesquisa Ibope que vai achar isto. Mulheres de Olho – No caso brasileiro, onde a mídia banaliza a sexualidade, percepções de que a inocência infantil vigora podem ser mais raras? SC - No Brasil isto pode ter se alterado um pouco. Mas se você cascavilhar as pessoas vão dizer – “Isto está acontecendo, mas antes disso as crianças eram inocentes: elas agora estão ficando pouco inocentes”. Curiosamente, quando Deevia apresentou o caso em Brighton (Inglaterra), no seminário que deu origem a este livro, eu perguntei se por acaso lhe tinha ocorrido perguntar se as crianças tinham se masturbado. É uma pergunta óbvia, a partir de quem conhece a teoria freudiana. E ela disse: -“Não!” Depois ela declarou que a pergunta foi oportuna, pois lhe possibilitou dar-se conta de que ela mesma estava presa num certo imaginário. – “Aí fui ler Freud, e outros autores!”… isto aconteceu com uma pesquisadora que tinha ido a campo para contestar a idéia de inocência e que tinha passado ao largo de que o aprendizado da sexualidade passa pelo aprendizado do próprio corpo. Isto mostra como é persistente e profunda essa representação. Ela está dando continuidade o estudo, o que na África do Sul é de uma ousadia enorme. Claro! Ela teve que vencer barreiras morais pesadas, enfrentar professores/as, para poder fazer essa pesquisa. Mulheres de Olho – Este livro faz parte do projeto Sexualidade e Desenvolvimento do IDS. Como se dá a correlação entre os dois temas? SC – O IDS é uma das instituições mais importantes do pensamento sobre desenvolvimento, que é a moldura mais geral desta publicação. Isto aparece muito na apresentação feita pelas organizadoras, e no meu texto, que na verdade é um power point que apresentei no seminário de Brighton. O objetivo com o seminário e a publicação é iniciar um diálogo com o campo progressista -mas ainda convencional- do desenvolvimento, no sentido de chamar atenção para o fato de que sim, a sexualidade é um tema do desenvolvimento. Não é um tema alheio. Seja quando se fala de Educação, do HIV/ Aids, de Cultura, Religião, Economia, o tema da sexualidade está presente. E há uma enorme resistência, ignorância, desprezo, desconsideração, na corrente PRINCIPAL do debate sobre desenvolvimento. A sexualidade continua sendo um tema ou inexistente ou marginal. Quando muito, ele é tratado pela via do HIV, ou pela via do planejamento familiar, da maneira mais destorcida e obscura, mas ele não é o tema central das conversações. A publicação faz parte desse esforço do IDS de dialogar com o que chama da “indústria do desenvolvimento”, com a cooperação bilateral, as agências de cooperação, sobre essa idéia de pensar a sexualidade como tema legítimo da conversa sobre desenvolvimento, e não como uma externalidade, como dizem os economistas: - “Essas coisas sobre as quais não podemos fazer nada”. Eles fazem as equações, e o que não cabe na equação eles chamam de externalidade. E externalidade se considera como dado da realidade, algo que não é construído, não é transformável, a não ser que afete o desenvolvimento, como foi o caso do HIV e Aids. A morbidade e a mortalidade por HIV começou a afetar as taxas de crescimento dos países, e isto forçou considerar que talvez não fosse tão externalidade assim. Mas ainda estamos muito longe disso. Serviço: A versão eletrônica de Questões de Sexualidade–Ensaios Transculturais está disponível no site do SPW, assim como links para as traduções em árabe, mandarim, espanhol e francês. A versão impressa da publicação pode ser solicitada gratuitamente pelo e-mail admin@sxpolitics.org Informações com Marina Maria: 55+21+22231040 Por Angela Freitas/ Instituto Patrícia Galvão ----------------------------------------------- O Observatório de Sexualidade e Política (SPW, do inglês Sexuality Policy Watch), em parceria com o Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento (IDS, do inglês Institute of Development Studies) da Universidade de Sussex, na Inglaterra, lançou no dia 10 de junho, no Rio de Janeiro, a publicação Questões de Sexualidade – Ensaios Transculturais. O lançamento aconteceu durante reunião geral de planejamento dos/as integrantes do SPW e, além da participação dos/as pesquisadores/as do Observatório e de convidados/as, contou com a presença de Andrea Cornwall, do programa em Sexualidade e Desenvolvimento do IDS e uma das organizadoras do livro. Questões de Sexualidade – Ensaios Transculturais é a versão em português da publicação IDS Bulletin – Sexuality Matters, decorrente do seminário Realizing Sexual Rights (Realizando os Direitos Sexuais), que aconteceu em setembro de 2005, no IDS. Trata-se de uma produção inédita no Brasil, que reúne reflexões em torno das implicações do sexo e da sexualidade no desenvolvimento, a partir de artigos de ativistas de distintas regiões do mundo, relatando experiências inovadoras e bem-sucedidas na defesa dos direitos sexuais como direitos humanos nos seus respectivos países. Entre os/as autores/as dos artigos está Sonia Corrêa, co-coordenadora do SPW e pesquisadora associada da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), sede do secretariado brasileiro do Observatório. Em seu artigo, Sonia apresenta um panorama histórico da associação sexualidade e desenvolvimento, a partir de uma visão geral pictórica das últimas três décadas, mostrando as diversas influências que, desde a década de 1970, têm impactado os debates sobre sexualidade. Traduzido simultaneamente para o árabe, mandarim, espanhol e francês, em parceria, com o MULABI - Espaço Latino-Aericano para sexualidade e Direitos (Argentina), o Centro Africano de Recursos para Sexualidade (Nigéria), o Instituto para Sexualidade da Universidade do Povo (China) e o Instituto para Estudos da Mulher no Mundo Árabe, da Universidade Americana do Líbano, o livro também tem versões eletrônicas disponíveis na internet. Acesse Questões de Sexualidade – Ensaios Transculturais em PDF e confira também as versões em inglês, árabe e em espanhol. Em breve, estarão disponíveis as traduções para o mandarim e francês. Os/as interessados/as em receber a versão impressa da publicação podem solicitar gratuitamente um exemplar pelo e-mail admin@sxpolitics.org . http://www.sxpolitics.org/mambo452/index.php?option=com_content&task=view&id=162
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  AS MARCAS DE UMA UTOPIA - 1968: as novas formas do amor - Agência Carta Maior

Submitted By:   criscasty
Author Name:  Flávio Aguiar
Published:  2008-04-25

Website:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14963
  Description:   A geração de jovens que literalmente fez arder as ruas e praças da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, sendo esbordoada, espadeirada ou até fuzilada por sua ousadia, fez arder também uma série de conceitos e pré-conceitos que cercavam, e por vezes, cerceavam o amor. Flávio Aguiar L’amour est une oiseau rebelle Que nul ne peut apprivoiser. (O amor é um pássaro rebelde Que ninguém consegue domesticar) Da ópera Carmen, de George Bizet. Libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, Segundo o conto de Prosper Merimée. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria E em mim converte em choro o doce canto. E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soia. Luiz Vaz de Camões Muito já se escreveu e se perguntou sobre as causas e as conseqüências das grandes revoltas de maio e de todo o ano de 1968, tanto em matéria de política quanto em matéria de cultura e de costumes. Um aspecto muito relevante, mas pouco relevado foi o das transformações por que passou o amor. Qualquer leitor apaixonado de literatura, filosofia e áreas afins do conhecimento, sabe que, se o amor envolve instintos imemoriais, sua formatação é de todo histórica. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, dizia Camões, e mudam-se também as formas de corte, sedução e as demais práticas do amor. Quando mais não seja, leia-se, pois está à mão, o livro “Sobre o amor”, de Leandro Konder, da Boitempo Editorial. A geração de jovens que literalmente fez arder as ruas e praças da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, sendo esbordoada, espadeirada ou até fuzilada por sua ousadia, fez arder também uma série de conceitos e pré-conceitos que cercavam, e por vezes, cerceavam o amor. Há uma moldura histórica para esse vendaval apaixonado nos comportamentos. Os que tinham cerca de 20 anos em 1968 e estavam nas universidades (aí há um condicionante de classe, por certo), viveram um momento excepcional da história humana. Não só se bateram por liberdades e utopias políticas, projetos revolucionários ou simplesmente revoltas as mais diversas, mas foram aqueles que tiveram o privilégio de vislumbrar uma liberdade amorosa e sexual utópica, sem precedentes na história. A primeira baliza desta utopia é a disseminação da penicilina como fármaco a partir de 1941. Descoberto por acaso em 1928 nos Estados Unidos, esse primeiro antibiótico foi transformado em remédio comum para ajudar os aliados nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Sua disseminação reduziu a graus menores a preocupação com o incômodo da gonorréia quanto aquela, mais soturna, com o fantasma da sífilis. A segunda baliza desta utopia é o lançamento, em 1960, nos Estados Unidos, da pílula anticoncepcional para mulheres. Esse novo produto abriu o caminho para a concretização de novos ideais libertários no comportamento feminino – e também, como se verá, no masculino. Esse momento de vislumbre durou menos de 20 anos. A partir de 1978 começaram a aparecer os primeiros sintomas da disseminação de uma doença sexualmente transmissível, que viria a ser batizada no começo dos anos 80 como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a SIDA, ou, em português brasileiro, a AIDS. Mas para quem viveu e cresceu nesta febre de paixões amorosas que se deflagrou a partir do começo dos anos 60, as marcas na memória, no corpo e na alma se tornaram indeléveis. Para começo de conversa, tomemos as palavras como exemplo. Palavras que já existiam se disseminaram, outras mudaram de lugar e inclusive de boca. Verbos como “transar” e “trepar”, embora tenham ainda seus códigos e normas de uso, como todos os outros, deixaram de ser palavrões (sobretudo transar). Em público, saltaram das bocas masculinas para as femininas também. Aportuguesaram-se o francês “faire l’amour” e o inglês “to make love”. Passou-se a “fazer amor”. Os mais viajados à Europa (ou nela exilados...) diziam até mesmo “fazer o amor”, seguindo o modelo francês. Certas palavras que descrevem as formas humanas também deixaram de ser palavrões, entre elas, “bunda”, por exemplo. Ganharam relevo e, dentro de certos contextos, foros de salão, palavras (muitas vezes de origem africana) que designam o túnel de amores do sexo feminino. O mesmo aconteceu com metáforas do falo masculino. Se a metáfora da madeira para esse falo ainda deve ser usada com cuidado em alguns contextos, “pinto”, por exemplo, foi completamente liberada para qualquer ocasião, dependendo de como se fala. Hoje isso é banal. Antes, não era assim. Uma criança que falasse em “pinto” ou em “xoxota” na sala podia muito bem levar um tapa na boca ou uma surra depois. No mínimo, uma repreensão severa. Mas nem tudo se tratou apenas, é claro, de uma mudança semântica. Nem mesmo apenas de avanços científicos que proporcionaram a libertação de certos fantasmas – pelo menos até diagnosticar-se outro, mais temível, o da AIDS. Essa geração de jovens nascida ou crescida depois da Segunda Guerra Mundial era talvez a primeira, desde o surgimento do Movimento Romântico na Europa, na passagem do século XVIII para o XIX, e sua disseminação pelo mundo, que não tinha a geração dos pais e a dos avós por modelo profundo. Em parte, porque a paisagem era inteiramente outra que a de seus antecessores imediatos. No Brasil, isso era dramático: a geração dos sessenta crescera numa paisagem de inchaço vertiginoso das cidades e da população urbana, num país industrializado; a de seus pais e avós pertenciam a uma paisagem agro-exportadora, onde as cidades de porte eram poucas, e apenas algumas, Rio de Janeiro à frente, tinham uma tradição metropolitana. Essa nova paisagem possibilitava também novos espaços, até mesmo esconderijos, para o amor, e o crescimento das universidades, com novos deslocamentos de jovens do interior para a capital, e mesmo inter-regional, dava a moldura para que os movimentos do amor mudassem de estilo e alcance. As meninas-moças, por exemplo, com uma pílula na mão e uma idéia (por vezes fixa...) na cabeça, passaram a ter na perda da virgindade uma condição sine qua non para freqüentar a roda com altivez. Mais: elas se entregaram à idéia de que a multiplicidade de parceiros – em seqüência ou nos casos mais radicais, simultaneamente – era uma das condições da realização da feminilidade. Isso modificou o comportamento dos rapazes também. Antes, o clássico era o rapaz iniciar-se no sexo, para além das “sacanagens” infanto-juvenis, no bordel, levado ou não por um parente mais velho. Não raro agora os rapazes passaram a se iniciar no sexo com as namoradas, e passaram a inicia-las também. As idéias de “traição”, “adultério”, “caso”, “amante”, etc., foram sobrepostas pelas de “liberdade”, “dona de si mesma” (para as mulheres), “impulso” e semelhantes. A palavra “desejo” foi muito valorizada, e a idéia de “continuidade” e “permanência” no amor viu-se acompanhada pela idéia de “momento” e a de “fulgor”, características da paixão. Para muitos o casamento tornou-se “careta”, ou uma imposição da vida, como por querer ter filhos ou não desejar afrontar demais os pais. O ideal passou a ser “juntar-se”, o que já existia antes, mas com a marca do estigma ou de não se ter outra saída, numa sociedade (a brasileira) que não admitia o divórcio e cujos seniores desquitados por vezes iam se casar no Uruguai, no consulado do México ou na Igreja do Brasil para terem o beneplácito social. Num país cartorial como o Brasil, essa mudança de atitude mostrava não só uma questão de “costumes”. Era uma revolta contra o carimbo, o papel passado, o culto à conveniência e, sobretudo, à aparência. Mas era o índice de uma mudança mais profunda, que atingia o caráter mesmo do amor. Havia uma mudança ética. Entre os revolucionários ou militantes de esquerda mais velhos, era comum uma duplicidade de comportamento: da boca para fora, ou da soleira de casa para a rua, pregavam-se os valores da igualdade. Da soleira para dentro, ou de fora das palavras públicas para as práticas da intimidade, não só se admitiam práticas autoritárias em casa, como se considerava “normal” a freqüência à prostituição. Para os jovens, pelo menos como ideal, buscava-se uma nova coerência entre a prática pública e os valores das atitudes em privado. Isso em todos os campos, como no caso em que pelo menos esses jovens procuraram libertar a homossexualidade e se libertar dos preconceitos que a cercavam. Mas havia também uma mudança de destino. Idealizado ou não, o sentimento do amor era visto, tanto para o homem como para a mulher, com pesos diferentes, é certo, como um ponto de chegada, uma chegada ao destino. Já para aqueles jovens revolucionários, ou que pelo menos queriam de fato sê-lo, o sentimento amoroso, e seu conexo, o amor apaixonado, passaram a ser vistos como o portal de uma iniciação, que, portanto, podia ser renovada a cada passo, a cada momento, ou no suceder das circunstâncias. Isso não trouxe uma banalização do amor, pelo contrário. Como nos tempos românticos, o amor passou a ser visto como a mais alta realização humana, desde que aliada aos princípios que organizavam também o conjunto das demais ações, na política, no trabalho, ou onde fosse. Na busca pela liberdade individual, tornou-se comum a busca de “almas gêmeas” para a realização amorosa, o que, se prolongou muitas relações, por um lado, trouxe-lhes também uma certa instabilidade congênita, pois a descoberta de que a “alma gêmea” não era tão gêmea assim trazia a separação ou a busca de outra alma ou pelo menos o seu desejo, o que podia assumir a forma de fugas momentâneas ou longas de um estado de monogamia, o que também não era muito valorizado. Práticas sexuais antes admitidas veladamente ou não admitidas de todo nas relações estáveis passaram a ser valorizadas. Neste particular foi fundamental o lançamento quase simultâneo de dois filmes (é verdade que no Brasil eles não chegaram por longo tempo, mas as notícias deles vinham da Europa, dos Estados Unidos, ou do Rio da Prata), em 1972. Um deles foi “O último tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e Maria Schneider, com sua cena de relação anal; o outro foi o filme que consagrou e transpôs a fronteira dos filmes pornôs, “Garganta profunda”, de Jerry Gerard, aliás Gerard Damiano, com Linda Lovelace e as cenas de felação. A iniciação amorosa, ainda que por vezes nas marcas culturais tocadas por ícones de consumo, era também uma iniciação ao próprio corpo e a todos os seus recônditos. Talvez essa marca – a do amor como contínua iniciação (uma idéia análoga à de revolução permanente) – tenha a sido a mais perene trazida por aqueles jovens românticos (para o autor dessas notas, isso é elogio) de 1968. Junto com ela, veio a idéia, nem sempre levada a sério, de que pensar numa revolução, seja em que frente for, implica revolucionar-se também. Se essa contínua iniciação se dará com uma única pessoa, com uma sucessão, ou até mesmo com uma simultaneidade, passada a febre das “obrigações”, percebeu-se depois ser uma questão de escolhas (onde nem sempre se escolhe, mas se é mais colhido ou colhida pelas circunstâncias) abertas de acordo com o destino, as possibilidades, e o amor ou amores (ou humores...) de cada um e uma. Mas a grande contribuição una daqueles jovens irrequietos foi descortinar o amor de iniciação não como algo que culminava um passado, ou como algo que aprisionava o tempo na mesmice do mesmo, e sim como um portal que podia abrir e re-abrir continuamente o futuro.
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